Artigos

Precisamos falar mais sobre pessoas no setor público

By 5 de agosto de 2022 No Comments

Artigo de Joice Toyota publicado na Folha de São Paulo em 04/08/2022

 

Há uma agenda necessária e de alto impacto para o Brasil: os profissionais públicos. Ou, para ser mais precisa, o papel dos profissionais que tornam concretas as propostas de governos eleitos e enfrentam os grandes desafios do país nos dias de calma e nos dias de crise.

Em meio a tantos desafios emergenciais e estruturais que exigirão nossa atenção até as eleições, pensar nessa agenda será essencial para garantir que os governos eleitos sejam capazes de realizar mudanças positivas e em grande escala.

O Brasil é uma democracia jovem, com uma parcela considerável da população sem acesso a serviços básicos. Atualmente, 80% da educação no Brasil é pública; 75% da saúde, também; e os demais 20% da educação e 25% da saúde são regulados pelo governo. Ou seja, grandes transformações passam, obrigatoriamente, pelo setor público. Governos têm escala, recursos, legitimidade e responsabilidade.

Podem fazer mais e melhor e, para isso, é necessário desenvolver sua capacidade de servir e entregar políticas públicas. O caminho para isso são as pessoas.

Pessoas bem selecionadas carregam em si a capacidade de resolver desafios complexos a partir de soluções inovadoras e, por isso, são potenciais vetores de transformação no setor público.

Quando debatemos nos últimos anos sobre a necessidade do fortalecimento da democracia, muitas vezes nos esquecemos de que um serviço público de alto desempenho é condição para uma democracia madura. É o serviço público o responsável por implementar as agendas aprovadas pelos eleitores após as eleições. Sem um serviço público efetivo, políticos eleitos não conseguem cumprir seus projetos, gerando desconfiança na população diante da política, das instituições e da democracia.

Segundo levantamento feito pela Quaest para o RenovaBR, divulgado no início de julho, 71% dos brasileiros estão insatisfeitos com a democracia. Além disso, rankings internacionais como V-Dem, The Economist e Freedom House nos consideram uma democracia doente. E não estamos sozinhos. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) acaba de divulgar um relatório, intitulado “Bulding trust to reinforce democracy”, que mede a confiança na democracia em 22 países membros da organização. O estudo mostra que parte da desconfiança surge justamente da insatisfação com a qualidade dos serviços prestados pelos governos.

Pouca gente se dá conta, mas a confiança da população na democracia não é efeito somente da ação dos políticos eleitos: ela está diretamente ligada também à efetividade (ou não) dos serviços entregues à sociedade.

Governos são feitos de pessoas —e serão melhores quanto mais tiverem pessoas comprometidas pelo desejo de mudar o país, inspiradas pelo sonho e ensinadas pelo exemplo. Precisamos falar mais delas.

Leave a Reply