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Transformação e impacto, o que move o seu futuro?

By 25 de julho de 2022 No Comments

Aconteceu nesta quinta, 21/07 o evento online “Transformação e impacto, o que move o seu futuro?”, com a presença de nomes importantes do impacto social no Brasil. O objetivo do evento foi de compartilhar histórias inspiradoras de quem trabalha com impacto para que mais jovens possam refletir sobre formas de se engajar e trabalhar com assuntos de impacto social no seu dia a dia. O evento faz parte das ações do Processo Seletivo Unificado que está aberto para Trainee de Gestão Pública e Residência.

O debate foi muito rico, e estamos trazendo aqui algumas falas que rolaram durante o evento.

Gilson Garret JR

Graduado em Comunicação Social pela PUC-PR. Especialista em Relações Internacionais pela UFPR e especialista em Modelo de Negócios de Startup pela PUC-PR. Repórter da Exame.

Antes de começar, quero trazer alguns dados para fomentar nosso debate. A taxa de desemprego na parcela mais jovem da população é sempre maior do que a média da população geral. Hoje a média da população geral está 9,8% no Brasil e entre os jovens este número fica 20% maior. Estes dados são desde 2016.

São 6 anos em que cada 2 a cada 10 jovens de 18 a 24 anos procuram emprego e não encontram vagas no mercado de trabalho. Estes números são do Ministério da Economia. Isso não significa que os jovens não se capacitam ou não se estejam atentos aos rumos do país.  Um exemplo disso ocorre agora, justamente nas eleições, segundo dados do TSE um dos maiores aumentos registrado no eleitores foram entre jovens de 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo. Nas eleições deste ano 2,1 milhões de jovens nesta faixa etária poderão votar. Em 2018, por exemplo, este número era de 1,4 milhão, o crescimento é 51% nesta faixa etária.

A busca por um emprego e a definiçaõ dos rumos do país, tem tudo a ver com esta paixão e missão pelo que se faz. Se anos atrás a remuneração era algo muito importante para a definição de um passo na carreira, agora os brasileiros valorizam cada vez mais a busca por um propósito. Se reflete na motivação e a produtividade dos colaboradores em geral, em todas as empresas e governos.

E é dentro deste contexto que vamos falar sobre o que te move para dar o próximo passo no mercado de trabalho.

Joice Toyota

Joice Toyota é co-fundadora e Diretora Executiva do Vetor Brasil. Formada em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), tem MBA e mestrado em Educação pela Universidade de Stanford. Durante a graduação, foi Presidente da Federação de Empresas Juniores do Estado de São Paulo.

O que faz um jovem querer trabalhar no setor público e ser bem sucedido neste trabalho? Não é só estabilidade. Tem muito mais do que isso, e chegamos à conclusão,  depois de mais de 1000 alocações que a gente fez nestes 7 anos de trabalho em parecerias com os governos, é que muita gente que tem sucesso no setor público, ele tem uma das três fatores motivacionais que vou falar a seguir.

O primeiro de longe é trabalhar com impacto social de escala. São pessoas que olham para o Governo e falam: “Não me reconheço nisso que está aí, quero ter um serviço público de mais qualidade no país porque a gente merece, como população e como sociedade e eu quero fazer parte da solução. Quero colocar a mão na massa e quero contribuir com isso”.  Algo muito comum, pessoas que querem fazer isso em escala. Jovens que querem impactar milhões de pessoas. Quem já trabalhou no setor público sabe que uma vez que você trabalha dentro do governo é difícil trabalhar com outras coisas, o impacto é tão grande, isso é tão apaixonante que  é mais difícil outros trabalhos fazerem sentido pra gente. Então esse é um dos fatores.

O segundo fator muito comum é quando a gente vai pro governo e se  realiza nesta função. São pessoas que tem muita preocupação em se desenvolver. Jovens que querem aprender, se desenvolver, quer estar em ambientes desafiadores. Eles estão neste momento da carreira em que querem alavancar.  Quem não vai com este mindset, com esta forma de pensar, acaba se decepcionando, porque muita gente pensa que é tranquilo trabalhar no governo e não é, sempre que dá problema na cidade, no estado ou no país, isso acaba no governo, e quem está lá tem que lidar com isso. Não é tranquilo.

E terceiro é quem tem uma grande paixão por desafios muito complexos. Eu falo que é uma paixão intelectual para resolver problemas muito complexos, e tem a resiliência para fazer isso. Quem é muito ansioso e está toda hora querendo fazer uma coisa diferente está fadado a só resolver problemas fáceis. E estes problemas não existem no governo, lá tem muito desafio complicado, complexo. Então, estes são os três fatores motivacionais que a gente vê de traços comuns entre jovens que querem trabalhar no governo e se realizam.

Rhayann Vasconcelos

Aos 19 anos, foi convidado a integrar o Governo de Pernambuco como Coordenador de Políticas Públicas voltadas à Juventude. Com os resultados demonstrados, partiu, em 2019, para outro desafio: conduzir e liderar a AcelereEdu, Edtech voltada a oferecer, com escalabilidade, educação de qualidade a milhares de jovens em todo país. Com menos de 2 anos de atuação, já foram beneficiados diretamente mais de milhares jovens, tendo sido, inclusive, matéria no Jornal Nacional, da TV Globo, no Jornal da CNN Brasil e no Jornal da Band. Em 2020, o Acelere no ENEM, produto da AcelereEdu, foi reconhecido como uma das 30 melhores iniciativas do Brasil.

Eu acredito que o poder do exemplo é muito mais forte do que o poder da fala. Quando você fala resumidamente para os seus colegas sobre determinada ideia ou iniciativa, do que poderia fazer, sobre escutas que você recebe destes jovens, no caso da minha realidade aqui no Pernambuco como um todo.

Muita gente fala não, isso não dá certo, na sua experiência com política pública diz que isso não dá match com o jovem, e quando mesmo assim você implementa isso, e  percebe que os jovens abraçam esta ideia, as pessoas começam a entender que você não só está fazendo para o jovem, está fazendo com o jovem. E isso muda tudo. Quando você de fato entende a necessidade e a realidade dele, e você pára para escutá-lo, transformando isso em realizações, o jogo muda.

A minha experiência foi que quando eu cheguei com 19 anos numa Secretaria de Estado, e encontrei lá pessoas com 20 anos de política pública e eu com zero experiência, essas pessoas se colocaram à frente da situação, o que é natural. Mas ao mesmo tempo eu sou jovem, eu consigo entender com mais facilidade o pensamento da juventude, o que aquele jovem está querendo, o que ele está buscando. Mas não me colocando numa posição hierarquicamente superior, mas de escuta mesmo, de colocar ouvido a ouvido para entender. As coisas começaram a dar certo quando eles viram que o que eu falava não era da boca para fora, era porque existia uma sinergia muito clara e até a minha idade mesmo com quem estava ali sendo beneficiada por aquelas políticas públicas.

A roda começou a girar de uma forma diferente. As pessoas começaram a me ouvir mais, começaram a me chamar para reuniões, para participar dos eventos. Não foi natural, o processo foi degrau a degrau, muitas vezes até por pressão social. Se a gente tem um jovem na equipe, ele acaba sendo um exemplo para mostrar que o governo está abrindo as portas para a juventude, então aos poucos fui entendendo o processo.

E quando eu cheguei no Governo, eu tinha uma vontade enorme de fazer tudo muito rápido, queria fazer as coisas acontecerem e nem sempre é assim, você precisa ir aos poucos, colocando aquela semente, regando, para que ela possa germinar e dar frutos, com muita calma e paciência. É preciso primeiro entender os processos, não se consegue implantar algo novo de maneira rápida, você precisa entender todo aquele processo para que a as pessoas possam vir junto com você. A participação do jovem, na minha experiência, no governo do Pernambuco durante 6 anos, foi essa. Foi de me colocar para o debate e a partir disso entender o que o jovem estava buscando, estava querendo falar.

Quando eu entrei no Governo, trabalhando com pessoas bem mais velhas, comecei também a usar roupa social, e quando eu ia para os municípios conversar com os jovens, eles não se identificavam muito comigo, pois eu estava muito formal. Então comecei a pensar: “Cara, se eu quero me comunicar com este jovem e entender o problema dele, para que a partir do governo eu consiga melhorar a vida dele, criar políticas públicas eficazes e eficientes, eu tenho que mudar a forma como eu falo, tenho que me adaptar como eu me visto para que ele se enxergue que de fato tem um represente dele ali. Dessa forma ele vai se abrir e conversar com um jovem que está representando naquela função específica no governo. É um trabalho do dia a dia, de muito aprendizado, humildade. Entender que você está numa situação de privilégio, por estar na capital, quando muitas pessoas estão no interior, muitas vezes sem internet, então é  um trabalho que você vai de fato abrindo o coração, a mente e se colocando a disposição para ajudar.

Mafoane Odara

Mafoane Odara, psicóloga e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo. É colunista, consultora, pesquisadora, ativista e hoje atua como líder de recursos humanos para América Latina na Meta. É presidente do Conselho de Administração do Fundo Brasil de Direitos Humanos e integra o Conselho de Diversidade da FGV-SP e os Conselhos Consultivos do Instituto para igualdade de gênero na política – Vamos Juntas – e da Escola de Formação Política – RenovaBR. Além disso, é integrante das Redes de Líderes Políticos da RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), da Fundação Lemann e do Movimento Agora!

Quando falamos em diversidade na verdade as pessoas confundem que tem a ver com reconhecimento das diferenças, mas na verdade tem muito mais a ver com a reflexão de como as relações e os direitos se constroem e se manifestam. A gente começa entendendo que diversidade, equidade e inclusão são algumas letras que a gente usa muito,  mas confundimos bastante. Então diversidade tem a ver com um conjunto de características étnicas, sociais, culturais e econômicas, que fazem com que a gente esteja num determinado lugar social. Este lugar nos possibilita estarmos mais próximo ou mais distantes de um processo mais equânime e mais inclusivo. A equidade é um processo para aumentar a justiça e a imparcialidade nos nossos processos.

Então imagina que a construção das políticas públicas precisa levar em conta a equidade. E quando eu falo sobre construção de políticas públicas em uma região rica em detrimento de uma região pobre, existem diferentes, não podem ser construídas da mesma forma. E quando eu falo em inclusão, eu falo sobre a condição necessária para trazer todo mundo para a mesma proposta de igualdade e de exercício do direito. Então imagina que a nossa sociedade, baseada na democracia,  possibilita com a Constituição que todas as pessoas tenhamos mesmos direitos e as mesmas oportunidades perante a lei. Para isso ser possível temos que levar em consideração esta diferença de compreensão de quais são as nossas identidades, como estas identidades se manifestam na nossa vida cotidiana e como eu faço para garantir ações e políticas que de fato garantam oportunidades iguais para todo mundo.

Essa é uma discussão fundamental para a área dos governos e por isso é tão legal o trabalho que o Vetor faz, trazendo para a centralidade esta conversa. Porque quando eu busco algo que é para todo mundo do mesmo jeito, eu tô na natureza construindo um processo de desigualdade. Pessoas vivem situações diferentes, então elas precisam te ações diferentes, processos diferentes para ter acesso ao mesmo direito.

Carolina Utimura

Carolina é CEO da Eureca, startup que atua na inclusão produtiva de jovens no mercado de trabalho. Também já foi delegada brasileira no Y20 2019 no Japão, fórum de juventude dos países do G20, e participou da fundação do Pacto da Juventude pelos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), que lançou o Atlas das Juventudes, com dados para embasar políticas públicas.

Antes de mais nada o jovem precisa entender o seu propósito pessoal, o que o move, pois todos têm este poder de escolha, de trabalhar com algo que tem um significado. E é importante usar este lugar de privilégio como um lugar de responsabilidade.

As vezes a gente acha que vai encontrar um portal, com o nosso propósito,  vai passar por ele e este vai ser nosso propósito para o resto da vida.  Não acredito que vai ser uma passagem tão fácil ou tão pragmática como essa. O nosso propósito vai sendo refinado, alterado, de acordo com a nossa experiência de vida, as coisas que a gente consegue ir fazendo, as pessoas que a gente vai conhecendo ao longo do caminho.

Para mim, por exemplo, o que ficou muito vivo o meu propósito, foi durante o movimento empresa júnior. Tive a super oportunidade de poder trabalhar de forma voluntária ao longo da faculdade, e passei pela Confederação Brasileira, onde pude visitar mais de 13 estados brasileiros em 2017, e isso abriu minha visão. Eu ia visitar várias faculdades na capital e interior, nas cidades grandes e pequenas,  e eu via a grande disparidade que existia.

Um exemplo foi na Federal de Pernambuco, onde as pessoas mal terminaram os estudos e tinham um pré-contrato para trabalhar numa grande empresa de tecnologia americana, enquanto eu tinha tinha passado na Federal do Mato Grosso do Sul e tinha acabado de acontecer um estupro dentro do Campus. Isso mexeu muito comigo, entender que mesmo neste ambiente do ensino superior público,  que é pouco acessível ainda, já tinha tanto a tecnologia de ponta, exemplos inspiradores, algo que funcionava muito bem, enquanto a gente tinha do outro lado desigualdade enormes, insegurança e condições muito aquém de qualidade que a educação poderia proporcionar. Aquilo foi muito forte para mim.

E esse foi o momento que eu acordei para o propósito de trabalhar por esta agenda da juventude,  especialmente hoje dentro da inclusão produtiva, ou seja, ajudar estes jovens a construir um trabalho decente seja em qual setor for. E ali dentro eu fui refinando e entendendo, primeiro essa era minha crença, minha tese de mudança muito forte, onde eu consegui enxergar o potencial do Brasil. Estamos caminhando para a última década de pontos demográficos. E poder incluir este jovem produtivamente e de fato se desenvolver como país, foi onde eu decidi colocar minha energia. A outra coisa foi entendendo o que eram os meus talentos, os meus pontos fortes, e como eu conseguia coloca-los em contribuição desta pauta, sempre pensando em gerar valores desproporcionais.

Encontrei em mim uma qualidade empreendedora. Não gosto muito de processos muitos estruturados, de seguir um manual. Sou um pouco aversa à isso, e ao mesmo tempo tenho uma forte crença de que o setor privado também pode e deve na verdade se responsabilizar por questões públicas. Então, empreender dentro disso faz muito sentido para mim. E para cada pessoas vai ser diferente. Nas suas vivências, o que te toca, aquilo que te causa revolta. Qual é a tese de mudança que você tem pra isso? E dentro dos seus talentos, onde você acredita hoje que você gera valor desproporcional, provavelmente no cruzamento destas duas coisas, pode ter um trabalho com propósito muito significante para você. E que ele possa ser aperfeiçoado, mudado, aprimorado ao longo do tempo.

Sempre fui muito aberta.  Eu já quis ir trabalhar no setor público, já quis ir para a política, e hoje eu entendo que onde eu gero valor desproporcional é empreendendo. É um caminho muito individual da gente olhar para dentro, olhar para as nossas crenças, nossos valores, o que nos incomoda. E tentar encontrar onde os nossos talentos podem contribuir.  Pra mim é um pouco disso.

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